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Stick To Your Guns

A 1 de Julho de 2016, o rapper norte-americano George Watsky lançou gratuitamente o single com o título Stick To Your Guns, onde explora três diferentes perspetivas sobre o tema dos Mass-Shootings. Nesta faixa, o artista fala a partir do ponto de vista do atirador e da hipocrisia, quer dos Mass Media, quer da classe política, a lidar com o incidente. Apesar de nenhuma referência explícita, nota-se uma clara inspiração do “massacre de Orlando”, um tiroteio numa discoteca LGBT que tinha ocorrido no mês anterior e que tinha levado a vida de 50 pessoas.


Perto de ano e meio depois (e já com outros incidentes do género a repetirem-se) os Estados Unidos voltam a parar com o drama de um massacre à mão armada, desta vez numa escola secundária em Parkland no Estado da Flórida. Morreram 17 pessoas pelas balas disparadas por uma arma semiautomática, legalmente comprada pelo atirador, Nikolas Jacob Cruz, um ano antes, quando teria 18 anos.

Reflitamos neste ponto. Um jovem que acabara de passar a ser legalmente maior de idade, num país onde não poderia adquirir álcool ainda durante dois anos, adquiriu um instrumento cuja eficácia é medida pela sua capacidade de ser fatal sobre outros seres humanos. Ademais, um jovem com problemas comportamentais diagnosticados, tendo já sido sinalizado por tentativa de suicídio e pela intenção de adquirir armas.

Nikolas acabava por ser também um reflexo daqueles que acabam, por uma ou outra razão, por não se encaixar na sociedade, encontrando compreensão nos pontos de vista dos Alt-Right americanos, que ganharam particular relevância com a tendência nacionalista do agora Presidente americano, Donald Trump. Nikolas defendia na internet a morte de latinos, afro-americanos e homossexuais bem como a opinião de que mulheres caucasianas em relações inter-raciais eram traidoras da sua pureza. Alegadamente também se sentiria bem com o facto de nunca ter conhecido a sua mãe biológica por esta ser judia e pretendia morrer a lutar. Por fim afirmou que um dos seus sonhos seria replicar o massacre da Universidade do Texas.

A indiferença a estes sinais tem de deixar qualquer ser humano perplexo no facto de que Nikolas conseguiu satisfazer a sua intenção. Relançou efectivamente o debate sobre a posse de armas nos EUA. De um lado a NRA (National Rifle Association) e grande parte dos representantes Republicanos a defenderem que foi mais uma situação isolada, causada por um miúdo com uma infância destruída (podendo a partir daqui lançar-se também a discussão sobre o “privilégio branco” pois nada garante que a retórica não fosse diferente caso o perpetrador tivesse um tom de pele diferente, mas isso dava um artigo por si só). Estes membros incorrem numa certa desonestidade intelectual ao argumentarem que “só um bom homem com uma arma, pode parar um mau homem com uma arma”, quase fazendo esquecer que esta solução os irá automaticamente beneficiar pela compra de ainda mais armas para todos os “bons homens”.

A perpétua defesa dos direitos que a Segunda Emenda supostamente lhes concede, parece ter constantemente o mesmo enredo: Massacre – “Não é a altura certa para debater isto” – “Estão nos nossos pensamentos e orações” – Nenhuma ação concreta – Novo massacre. Num constante ciclo, quase tradição garantida anualmente.

Do outro lado, uma novidade: os jovens que perderam os colegas no massacre revoltaram-se das mais diversas formas contra este violento modo de vida. Foram às redes sociais, aquelas que são provavelmente as plataformas onde têm maior voz, para protestar seriamente, com longos textos tentando valer que o seu direito de ir e vir da escola é mais importante do que o direito de qualquer pessoa comprar uma arma de fogo, e também através dos mais irónicos e niilistas memes, que demonstram que a solução do Presidente de armar os professores resultaria numa situação em que um aluno ir buscar uma calculadora à mochila se podia tornar num sangrento tiroteio digno de um filme realizado por Quentin Tarantino.

Pela primeira vez, estes jovens, e não os seus progenitores, encontravam-se na linha da frente na luta pela sua segurança. As vigílias rapidamente se tornaram não só num local de luto mas também de protesto, nas quais, não poucas vezes os mais novos eram os mais sensatos, preocupados e racionais com este panorama. Correram rumores de que estudantes planeavam uma greve às aulas enquanto o Congresso e/ou o governo não tomassem medidas concretas à posse de armas, principalmente nas imediações das instalações escolares.

Aparecem daqui duas forças reacionárias aos estudantes: uma ainda dentro das próprias escolas, com diretores e administradores a ameaçarem que os estudantes enfrentariam todas as consequências sem ter em conta o valor do protesto; a outra por parte do poder político como por exemplo os senadores que, apesar de defenderem que jovens com 18 anos já têm as condições civis necessárias para terem em sua posse armas de calibre militar, consideram que os protestos destes mesmos jovens são nulos, pois com esta idade são demasiado emocionais, erráticos e impulsivos, para tentar discutir tais propostas com os Senhores Doutores.

Porém, muita calma nessa hora. O movimento March For Our Lives não é totalmente isento de qualquer crítica. Apesar de terem conseguido uma notável mobilização, quase sem precedentes para um protesto deste género, que terá tido a participação de 1,2 milhões só nos EUA em mais de 800 localizações - mas com o foco principal em Washington DC - alguns dos seus elementos mais notáveis foram alvo de críticas. Desde as mais mesquinhas como a sexualidade ou o look de Emma González, uma das sobreviventes do massacre que se tornou porta-voz do movimento, ou a escolha coincidente de David Hogg, filho de um agente FBI, para uma das principais figuras do protesto, até críticas mais sérias como que o tiroteio teria sido encenado e patrocinado pelo partido democrata e por um suposto lobby de Hollywood e que estas figuras se tratavam de “Atores de Crise”. De qualquer forma, o resultado final do protesto é questionável. No final de contas que ações foram realmente tomadas por pressão deste movimento? Por quanto tempo irá durar o ímpeto deste movimento? Será que umas meras semanas que culminam num titânico protesto são o suficiente? Ou será a força nacionalista e conservadora republicana forte o suficiente para retaliar este esforço?

Não só os EUA não reagem aos extremistas nacionalistas - que na prática são mais perigosos e fatais do que os seus homólogos muçulmanos que tanto combatem e temem - como limpam o sangue das suas mãos, aproveitando para as secar no dinheiro da indústria lobista, por defenderem algo escrito em 1791, que permite que alguém encontre o seu propósito em ceifar a vida dos seus colegas, pois não encontra esse propósito enquanto membro da sociedade.

Luís Manuel Oliveira

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