Mantendo a tradição e o respeito por tudo o que
representa, no passado dia 25 de abril decorreram em Lisboa as comemorações do
44º aniversário da revolução que nos trouxe de volta a democracia e nos ensinou
o conceito da palavra “liberdade”. Várias foram as intervenções políticas, no
entanto, uma em particular despertou o meu interesse: a intervenção do
excelentíssimo senhor deputado Paulo Sá, do Partido Comunista Português.
Diz o senhor deputado que “nenhuma destas conquistas [da
Revolução de abril] foi oferecida ao povo português”. Não podia estar mais de
acordo. Porém, mais tarde, refere que “certas pessoas e certas forças políticas
(…) têm uma atitude de quem abomina a democracia ou a vê simplesmente como um
processo formal em que a intervenção das massas populares na vida política se
deve limitar ao voto de quatro em quatro anos”. Fiquei um tanto intrigada.
Tal decorre da
inconsistência do discurso. Recuemos até abril do ano passado. Em Caracas
viviam-se momentos de tensão crescente. De um lado a população a lutar pela
democracia, do outro um governo a usar toda a força para manter a ditadura. Os
comunistas portugueses
mantiveram-se ao lado de Maduro (assim como de todas as ditaduras totalitárias
comunistas ao longo do século XX) o que nos faz perceber quem está realmente
disposto a apoiar os valores democráticos.
O discurso não ficou por aqui. Continuou, mencionando
agora que
“particularmente gravosa foi a ação do anterior Governo PSD/CDS que desferiu o
mais brutal ataque de que há memória aos direitos dos trabalhadores e do povo”
e que “a corajosa e persistente luta dos trabalhadores e do povo português
levou ao isolamento político e social desse Governo, à rejeição da sua política
de exploração e empobrecimento e, em Outubro de 2015, à sua derrota eleitoral”.
Primeiramente, verdade seja dita que
a coligação de direita não renovou a maioria parlamentar, mas certo é que PSD e
CDS, sob a bandeira “Portugal à Frente”, venceram as últimas eleições legislativas.
Por outro lado, temos o famoso “ataque brutal” quando a carga fiscal atingiu em
2017 cerca de 34,7% do PIB, o que representa o valor mais elevado desde, pelo
menos, 1995.
Não obstante, o
senhor deputado relembra o país que “nos últimos dois anos e meio, com o
contributo decisivo do PCP, foram adotadas medidas de defesa, reposição e
conquista de direitos e rendimentos”. Quem ouve esta afirmação pensa que a
Geringonça tem feito um trabalho excecional pelo Portugal do futuro.
No entanto a
intervenção prossegue dizendo que “as medidas estão aquém daquilo que seria
necessário e possível, e se não se vai mais longe (…) isso deve-se às opções do
PS e do seu Governo, que, em convergência com PSD e CDS, mantêm o seu
compromisso com os interesses do grande capital e a sua submissão às imposições
do Euro e da União Europeia”. Para o PCP esta solução de Governo, que é, no
mínimo, revolucionária, nem sempre atua conforme se pede e exige, mas quando o
faz o contributo realmente decisivo é o do PCP. Quando a atuação do governo
falha ou fica aquém, o PCP está isento de quaisquer responsabilidades. As
responsabilidades residem na aproximação do PS à direita e aos interesses
diabólicos da União Europeia que nos condena perpetuamente à sua submissão.
Em suma, sim senhor deputado, felizmente, “superando
todas as dificuldades e obstáculos, [Portugal] empreendeu a construção de uma
sociedade mais livre, mais justa e mais fraterna” que continuará assente nos
valores de abril, mas também da União Europeia (ao contrário do que o Partido
Comunista Português deseja) com a dignidade do ser humano, a liberdade, a
democracia, a igualdade, o estado de direito e os direitos humanos como
pilares.
Ana Santos

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