Euskadi Ta Askatasuna. Pátria basca e liberdade. ETA.
Desde 31 de Julho de 1959 que
estas três letras representavam uma ameaça à sociedade espanhola. O pretérito
imperfeito confirma o que já era expectável há mais de meia década. A 20 de Outubro
de 2011 a organização havia anunciado o fim da sua luta armada, um cessar-fogo
que apenas retardava a sua “morte” oficial. Essa chegou na quinta-feira, 3 de Maio. Num comunicado difundido
pela comunicação social, a ETA deu “por concluída a sua actividade política”. A
dissolução de todas as estruturas da organização dá início a uma nova página na
história da região e do país.
Aquando da sua fundação, a ETA
identificava-se como um grupo de promoção da cultura basca. Fundada por
dissidentes do Partido Nacionalista Basco, iria, no final da década de 60
assumir na plenitude o papel de organização paramilitar separatista. O declínio
do franquismo foi catalisador na sua expansão. O primeiro grande sinal de
insurreição foi a “Operação Ogro”. Assim ficou conhecido o atentado que vitimou Luis Carrero Blanco, Presidente
do Governo Espanhol, em 1973. O magnicídio veio fraturar ainda mais o regime e serviu
de aviso para o que se seguiria. Sangue continuaria ser derramado, mas,
daí para a frente, ainda mais profusamente. O período da Transição – assim
ficou conhecido o processo de mudança da ditadura para o regime constitucional
– foi o mais violento. O ano de 1980 foi o mais mortífero – 93 baixas. Foi
ainda durante a década de 80 que o braço político da organização se dissolveu,
permanecendo o armado. Não obstante a nova constituição espanhola – assinada em
1978 - que concedia maior autonomia ao País Basco, a ETA continuou, firme e
inabalável na busca da independência da região. A ascendência que tinha ganho,
graças a múltiplos atentados e operações, viria a sofrer um importante revês na
década de 90. A detenção dos líderes do braço francês minou de forma
irreversível a sua capacidade organizativa e levou à aplicação da “socialização
do sofrimento”, estratégia que viria a vitimar centenas de políticos locais e
agentes da autoridade. O pouco apoio que ainda detinha junto de alguns setores
da opinião pública esfumou-se por completo com a aplicação de métodos tão
violentos e púnicos. De tal maneira desapoiada, a ETA passa a ser uma sombra de
si mesma. Muitas das tentativas de negociação entre a organização e os líderes
governativos redundam em mais detenções de muitos dos seus dirigentes. A
decisão tomada em 2011 é inevitável. A única preocupação dos “etarras” (designação atribuída aos seus membros)
passa a ser tentar reduzir as penas dos companheiros encarcerados. O sistema
judicial é impiedoso e faz de tudo para impedir que tal aconteça. Vai mais
longe e tenta transferir os “etarras” para estabelecimentos ainda mais
distantes da sua região.
Já este ano, a ETA pede desculpa.
Desculpa pelos “danos causados”, desculpa pela dor provocada, desculpa pelos
“mortos, feridos, torturados, sequestrados” e por muitos daqueles que se
exilaram devido ao conflito pela causa basca. Curiosamente, pede também
desculpa pelas muitas vítimas involuntárias que pereceram devido a “decisões
erradas” da organização. Um “mea culpa” que,
apesar de legítimo, não deixa de ser inusitado, especialmente se tivermos em
conta a ausência de um pedido de perdão especialmente dirigido à esmagadora
maioria das vítimas – aquelas que faleceram direta e voluntariamente por
decisão dos comandos bascos. A organização assume os seus erros, reconhece que
a paz e a estabilidade já há muito deveriam reinar na região, mas, simultaneamente,
aponta o dedo aqueles que, desprovidos da sua coragem e lucidez, até hoje,
ainda não assumiram culpa de muitas outras “ações violentas” que abalaram o País
Basco. Do outro lado da barricada, o governo exalta todos estes
desenvolvimentos como uma vitória política, e um sinal inequívoco do
fortalecimento do “Estado de Direito”. Esta troca de galhardetes relega para
segundo plano as vítimas e os seus familiares – os verdadeiros afetados pelo
“banho de sangue”. Sentem-se, em todo o seu pleno direito, injustiçados e
magoados. Falam em “branqueamento histórico”, afirmam-se incapazes de perdoar.
A independência do País Basco é
uma causa tão válida quanto o pugno pela secessão da Catalunha ou da Escócia.
Conquanto, a primeira cruzou, de forma leviana e arbitrária, a mais importante
de todas as linhas da condição humana. O outorgar a si o direito de terminar
com a vida de um terceiro. A pergunta que se impõe já não é tanto a da praxe.
Ao invés de indagarmos se estaremos dispostos a dar a vida por aquilo em que
acreditamos, devemos antes pensar se estaremos dispostos a matar.
Gonçalo de Sousa Tavares Pé d'Arca


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