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“A Grande Vaga de Frio”

Para quem já alguma vez leu Virginia Woolf, não estranha tanto a confluência de identidades, pensamentos e enredos num só corpo de texto. O mesmo acontece com a dramaturgia “A Grande Vaga de Frio”, inspirada na obra “Orlando” publicada em 1928. Quem dá voz ao monólogo é Emília Silvestre que atua num cenário minimalista e frio, com as raízes e o tronco parcial de um carvalho suspensos no meio do palco. Convém referir, antes de partir para possíveis interpretações, que a peça atravessa a era vitoriana, de repressão puritana, até aos incipientes movimentos feministas, que, no início do século XX, já concretizavam alguns dos seus objetivos, como o direito ao voto.

A obra desenrola-se desde o século XVI até ao início do século XX abordando, com sensibilidade, temas como a emancipação feminina, a homossexualidade e a androginia. O conservadorismo patente na sociedade da época, e suas tradições, permitem-nos compreender a sua vertente polémica. Seria, por isso, impensável, à luz da mentalidade de então, abordar estes temas, muito menos da forma vanguardista como o fez Woolf.

Neste romance, Orlando diz-se orgulhoso por pertencer, num primeiro momento, a uma “nação de grandes homens responsáveis por feitos heroicos”. Esta referência é intencional, pretendendo focar que, até ao século XVIII, os homens contribuíam para a nação com base na força física, enfatizando a masculinização defendida nesta altura. Ao mesmo tempo, o papel da mulher, apontada como submissa, era restrito ao ambiente doméstico não tendo, por isso, direito a qualquer tipo de opinião ou personalidade próprias. Orlando sente-se, contudo, afastado desta nação, uma vez que queria contribuir para o seu povo através da pena e não da força. Sendo homem na sociedade “isabelina” do século XVII, pode utilizar a literatura como forma de expressão, uma vez que, então, tanto o livre acesso quanto a produção literária, estavam restritos aos homens. O género feminino era oprimido e limitado pelos preconceitos culturais da época.

As formas como homens e mulheres se deviam comportar, exploradas ao longo da autodescoberta de género por parte de Orlando, são apenas construções ideológicas que procuram perpetuar estereótipos culturais de género. Este romance funciona, também, como uma primeira referência ao feminismo, na medida em que pretende alterar a perceção da figura feminina, atribuindo-lhe mais valor e poder.

Virginia Woolf consegue, assim, prender-nos ao longo de mais de três séculos nos quais vamos acompanhando Orlando, a personagem principal, e os seus trezentos e cinquenta anos de vida. Como é possível? Woolf, através de uma brilhante alegoria, pretende demonstrar a relação entre o tempo e a intensidade com que é vivido. Enfatizando o facto de que alguém consegue viver muito ainda que em pouco tempo, somos remetidos para as experiências vividas em detrimento do tempo cronológico. Ao mesmo tempo, é uma referência para o amor. Orlando vivia fugazmente as mais ardentes paixões. O que nos revela não só a intemporalidade da obra, mas também a sua capacidade de amadurecimento, uma vez que, ao longo de todas estas descobertas, a personagem vai crescendo e moldando a sua personalidade.

Perante sucessivas deceções, como a rejeição da sua amada, a frieza de um ídolo e as guerras políticas nas quais se envolve, Orlando vai-se aproximando, cada vez mais, da plenitude enquanto indivíduo, contribuindo para a sua autodescoberta e consequentemente para o seu processo de se revelar mulher. De facto, com o avançar da obra, a personagem vai sentindo uma dificuldade crescente em se inserir no género com o qual nasceu. Assim, Orlando, após uma longa semana de sono profundo, acorda mulher. A realidade é que, com o avançar do tempo, volta a sentir que não se enquadra, totalmente, em nenhum dos géneros. Se, por um lado, tem características femininas, por outro, tem igualmente características tipicamente associadas ao género masculino. Esta dificuldade de inserção leva-o a uma profunda autorreflexão, o que lhe permite conhecer-se melhor e compreender, assim, que não tem obrigatoriamente de seguir o estereótipo de um género com todas as suas vertentes e características.

Esta alegoria representa, igualmente, uma necessidade de adequação social, pois é a história de uma pessoa que experiencia mais de trezentos anos, evoluindo e moldando-se de acordo com o ambiente em que vive de uma forma natural, contudo, sempre fiel aos seus princípios e valores.

A liberdade dos homens, representada pelo aventureiro que explora o Cabo Horn e esvoaça os ventos com uma avioneta; a doméstica conveniência e restrição das mulheres; a época Vitoriana de costumes moralistas e a época de mutações sociais do início do século XX — dicotomias presentes na peça e que estruturam o monólogo, contribuindo para conferir à obra uma forte crítica política e social.

O objetivo último da arte é confrontar-nos com questões. É forçar-nos a exercitar a nossa inteligência e a procurar por nós próprios, consoantes os nossos recursos e experiências de vida, as respostas para as questões ou dilemas propostos pelo artista. Ora, esta “Grande Vaga de Frio” não deixa de desempenhar este papel. Apesar das falas serem pura poesia, ricas em metáforas e jogos de retórica, e tal dificultar a sua compreensão dado estarmos habituados ao mais linear e coloquial discurso, não deixamos de vislumbrar os conflitos interiores e os pensamentos de “Orlando”. Somos, assim, transportados para o seu lado mais íntimo, compreendendo a dificuldade que, por vezes, todos sentimos em nos enquadrar, seja num determinado género, tempo ou sociedade.

Alex F. Alves
Catarina Cardoso

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