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SIM ao consumismo?

O consumismo é, por definição, caracterizado como um estilo de vida com propensão ao dispêndio desmesurado e supérfluo. Tal definição poderia, facilmente, referir-se ao comportamento de cada um de nós, uma vez que todos temos necessidades de consumo consideradas excedentes, muito superiores às necessárias para garantir a nossa sobrevivência. Se assim não fosse, teríamos apenas um par de sapatos porque, afinal, é o indispensável.


Contudo, na nossa sociedade, isto não se justifica. Temos um par de sapatilhas para sair, outro para fazer desporto, um par de sapatos para o dia-a-dia, outro para cerimónia, juntando diversas cores, modelos e padrões. Quando nos apercebemos já vamos em vinte e tal pares e com falta de espaço onde os colocar. A realidade é que a linha que existe entre consumo e consumismo é muito ténue, tornando-se, muitas vezes, difícil de distinguir.

Inicialmente descrito como “consumo conspícuo”, o consumismo surgiu no século X quando Thorstein Veblen, economista e sociólogo, procurava descrever o consumo observado nos Estados Unidos no pós-guerra. Tal definição acabou, na década de 60, por se generalizar para o “consumismo” como hoje em dia o conhecemos. Contudo, nos últimos anos, a palavra “consumismo” tem vindo a ganhar, cada vez mais, a conotação negativa que hoje lhe é atribuída. A questão passa a não estar, portanto, no ato do consumo em si, mas sim no sentido vincado que se atribui aos termos nos dias que correm.

Em oposição, surgiram os movimentos “anti-consumistas”, que defendem práticas mais radicais como o consumo exclusivo de produtos de origem biológica. De forma análoga existem culturas que condenam o consumo de produtos de origem animal. Creio que não se pode estabelecer este tipo de princípios - estas “linhas” de atuação -, de forma universal.

Será que um padrão aceitável de consumo é aquele em que apenas se incluem bens de extrema necessidade? Claro que não. Consumir apenas o essencial seria o equivalente a retroceder um século, quando o consumo era quase integralmente direcionado para a manutenção da sobrevivência e de uma vida remendada e pouco digna. O progresso da sociedade criou necessidades de consumo mais alargadas. Aquilo que, há uns anos, seria considerado um excesso, hoje já faz parte do padrão tradicional de consumo, da mesma forma que aquilo que hoje é visto como supérfluo, como um ato de consumismo, pode, daqui a uns anos, ser normal.

Daí a dificuldade em definir a fronteira de onde começa e onde termina o consumismo. Não é algo tangível que seja passível de medir ou quantificar com exatidão. É algo que vai evoluindo em conjunto com a própria sociedade, que se vai ajustando a uma sociedade tecnologicamente mais avançada e socialmente mais desenvolvida.

Nenhuma das visões – consumismo e anti-consumismo – representa uma posição razoável. Com o objetivo de fazer face a estas questões, têm vindo a surgir diversos movimentos que defendem um consumo pautado pela racionalidade com que fazemos escolhas, protegendo, assim, os recursos. São os “consumeristas”, cuja ideologia assenta, essencialmente, em dois pilares: a racionalidade e a responsabilidade com que o consumo é efetuado.

Mas, afinal, que parâmetros definem esta racionalidade? Não podemos avaliar este tipo de questões de forma linear. Aquilo que é racional para uns pode não o ser para outros, e vice-versa. O mesmo acontece com o consumismo e a tal linha imaginária que nos é impossível de definir.

Conseguimos perceber que uma sociedade desenvolvida está, e estará sempre, mais próxima do consumismo do que do seu oposto. A sociedade progride de mãos dadas com o consumo, e nós, enquanto seres humanos, teremos sempre uma tendência intrínseca para consumir que não podemos contrariar. Devemos, então, poder consumir e fazer uso dos recursos que temos disponíveis. Com um limite, claro. Temos a obrigação de olhar para o futuro, acautelando que ele terá um fim. Isto é o consumerismo, uma solução razoável entre o consumo básico e o desmedido.

Por que não utilizar a inovação tecnológica que caracteriza a nossa sociedade para criar mecanismos de reciclagem de produtos, que permitam nova produção e novo consumo sem comprometer, contudo, a sustentabilidade do planeta e o futuro das próximas gerações? Se pretendemos ter vinte pares de sapatos, temos esse direito, desde que haja um processo que permita que, um dia mais tarde, quando deles nos desinteressarmos, possam ser reciclados e usados para produzir outros bens. A solução passa, então, não por consumir menos. Mas sim por apostar, cada vez mais, numa economia circular. Este tipo de economia permite substituir o conceito de “fim de vida” de uma economia linear. A economia circular consegue reintegrar estes recursos no processo produtivo, permitindo, desta forma, responder à procura crescente e consequente pressão sobre os recursos naturais, através da minimização de consumos e perdas de energia.

Portanto, o problema não está no ato do consumo em si, nem na necessidade de definir uma linha que separe o que é considerado consumo do consumismo. A questão deve assentar nas estratégias que adotamos para que possamos manter os padrões de consumo desejados sem comprometer a sustentabilidade do planeta. Desta forma, e explorando as potencialidades que a economia circular nos pode proporcionar, podemos dizer sim ao consumismo com a garantia de que não estamos a arriscar o futuro em nome do imediato.

Catarina Cardoso

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