Luigi di Maio, do movimento 5 estrelas,
foi o candidato mais votado das eleições italianas.
Nas televisões afirmaram que a sua vitória
foi um ponto de viragem na política europeia (como já disseram de tantas
outras), que o seu modo de fazer campanha foi inédito (como já disseram de
tantos outros), e que a sua mensagem era populista (como dizem de toda a
gente).
Para quem tenha tido o discernimento de
não acompanhar as eleições italianas, é importante explicar que Luigi di Maio fez
uma campanha que, muito à semelhança da série Seinfeld - foi sobre nada. Não se
comprometeu com nada de concreto, manteve as suas declarações o mais moderadas
e ambíguas possível (chegou até a dizer que não era nem de esquerda nem de
direita), foi fazendo valer a sua capacidade camaleónica para ficar de ambos os
lados de todos os assuntos e, mais por incompetência alheia do que por mérito
próprio, arrecadou vitória.
E neste sentido, ao contrário do que foi
difundido nas televisões, o seu triunfo pouco ou nada tem de único ou de
inédito. A ambígua personalidade pública de Di Maio é apenas mais um produto
(como as de Hillary e de Macron antes dele) dessa indústria promissora que é o
Marketing Político.
Essa mesma indústria que tem invertido por
completo a lógica do sistema democrático. Se outrora os eleitores ouviam
primeiro o que os candidatos propunham e depois escolhiam aquele que
preferissem, agora o candidato político é uma pasta amorfa que será moldada de
antemão para estar de acordo com as preferências do eleitor.
A julgar pelos resultados desta fórmula é
de esperar que nos tenhamos que começar a habituar a este estilo de políticos-softcore.
Como tal, importa perceber quem é, o que move, e como opera este tipo de
candidato-protótipo que nos é oferecido pelo marketing político (do qual Di
Maio é apenas mais um exemplo).
Nascido em focus groups e em estudos de mercado ele é a solução,
perfeitamente arquitetada para dar resposta às necessidades do eleitor chave.
Confiante na sua equipa de bastidores
(responsável pela gestão do seu branding pessoal), conjugará a sua imagem
pública pré-testada em laboratório com uma mensagem ideológica relaxada (que
isso das ideologias só nos dividem), e fará da ambivalência a sua maior arma na
luta pela vitória eleitoral.
Em campanha começa por assegurar o votante
de esquerda das suas preocupações sociais. Diz sonhar um dia eliminar a
pobreza. Dispara mais uma rajada de lugares-comuns, antes de assegurar o votante
de direita que, para alcançar esse sonho, não se poderá pôr em causa as
liberdades individuais e a iniciativa privada. Avisa que se queremos mudar as
estatísticas é urgente fazer reformas, mas que essas reformas não podem ter
impacto nas vidas das pessoas, que as pessoas, ressalva, – não são números; e, redundante
como uma candidata a Miss Mundo, garante que tudo fará para promover um governo
que governe bem.
Para a imprensa é um artista dos sound-bites.
Com um faro inato para as oportunidades fotográficas e uma noção de timing
invejável na hora de redigir um tweet em que se compadece com a mais recente
tragédia, torna-se um protagonista nos media generalistas, e o apoio que lhe
faltar na opinião pública arrecadará na opinião publicada.
Ao debate apareceu impecavelmente vestido,
com um pin na lapela alusivo a uma qualquer mensagem social em trending nas
redes sociais. Encarou de frente os temas fraturantes, mas avisou que hoje mais
que nunca é necessária uma abordagem moderada. Fugiu das polémicas, afirmou a sua
fé na justiça, mas admitiu que não porá as mãos no fogo por ninguém. A
argumentar não é desnecessariamente complicado, fica-se pelos slogans, deixará
as ilações políticas para os comentadores que as adaptarão ao gosto de cada
target audience.
No comício final garante que não é um
político de carreira, mas que fará carreira na política. É um homem versado no
funcionamento do sistema. É um outsider. É um homem do povo. É um estadista. É
um socialista aos olhos dos sindicatos. É um liberal aos olhos dos mercados. É
quem quiserem que ele seja. É toda a gente. Não é ninguém.
Eis o retrato do novo político
pós-moderno, demasiado consciente das consequências eleitorais do que possa
ser, para correr o risco de ser seja o que for.
A indústria política que faz de humanos
candidatos modelo, focou-se em aperfeiçoar os seus mensageiros, e esqueceu-se que
o que queríamos ouvir era a mensagem.
Era assim inevitável que, perante este
défice estrutural de conteúdo, e este infindável menu de candidatos insossos,
mais tarde ou mais cedo o eleitorado desenvolvesse um forte apetite por autenticidade.
E é deste apetite que nasce o fascínio
atual pelo politicamente incorreto. Pois neste mundo de autómatos perfeitamente
programados, há um perigo real de nos deixarmos levar por um qualquer louco aos
gritos, só porque nesses gritos reconhecemos algo que se assemelhe à voz
humana.
Luís
Barreiros

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