Há
quem diga que é uma moda, há quem diga que é o futuro. Hoje é notório o
crescente interesse pelo veganismo, o movimento que bane a exploração de
produtos de origem animal para consumo e uso humano.
Com
o aumento cada vez mais expressivo da procura por produtos alternativos são
muitas as marcas que já apostam neste segmento de mercado. A “Nestlé”, a maior empresa de
alimentos do mundo, prevê que a tendência está "para ficar". A “Olá” já lançou o primeiro “cornetto”
vegan no mercado português e o “boom”
de restaurantes com ofertas 100% de origem vegetal não para de aumentar. Em 2017 já 6% dos
norte-americanos se identificavam como vegans, um aumento de 600% em apenas
três anos. Em Portugal o aumento foi de 400% na última década e atualmente corresponde
a 0,6% da população. A orientação da indústria alimentar para este “target” é
cada vez menos uma aposta e mais
uma constatação inevitável de que o mundo está a mudar.
Os
“millennials” são os que mais impulsionam esta transformação.
Cerca de 12% desta geração é vegetariana, em comparação com 4% da geração X e 1% dos “baby boomers”. Será este um reflexo inevitável da evolução da
sociedade? Até que ponto, numa sociedade que se diz mais justa e consciente, é moralmente justificável tirar a
vida a um ser vivo ou explorá-lo para nosso bel-prazer?
Muitas
razões poderiam justificar uma resposta afirmativa, seja por razões culturais
ou de saúde. No entanto, basta um simples exercício de desconstrução para
perceber que não é bem assim. No que ao aspeto cultural diz respeito a teoria
mais comumente referida é a de que não estaríamos aqui se não fosse pelo
consumo de carne. Os nossos antepassados sobreviveram porque caçavam e foi a
carne que permitiu o desenvolvimento do ser humano até ao que é hoje. Mas
basearmos a nossa argumentação nos atos dos nossos antepassados não será
arriscado? Pela mesma lógica também é moralmente justificável violar, matar e
escravizar, só porque os nossos antepassados o faziam e lhes permitiu
sobreviver nas respetivas épocas? Talvez não seja o melhor guia moral.
Por
outro lado, é regularmente apontado como razão para comermos carne o facto de a
proteína animal nos ter ajudado a
crescer e desenvolver o nosso cérebro. Mas se é
possível obter muitos dos nutrientes necessários através do consumo de produtos
de origem animal também é verdade que esta alimentação está intimamente ligada
a múltiplas doenças como enfartes, diabetes tipo 2, alzheimer, alta tensão arterial, osteoporose e doenças
cardíacas. Então, onde vamos buscar a proteína se não à carne e o cálcio se não
ao leite? A verdade é que a proteína, o ferro, o cálcio, o zinco, os ómega-3 e
6 podem ser encontrados em abundância no reino das plantas, sem os nocivos
efeitos secundários.
De
acordo com a American Dietetic
Association “uma alimentação vegan bem planeada é saudável,
nutricionalmente adequada e pode proporcionar benefícios à saúde na prevenção e
tratamento de certas doenças”. Para além disso, “é apropriada para indivíduos
durante todos os estágios da vida, incluindo gravidez, lactação, infância e
adolescência, bem como para atletas”. Outras organizações de todo o mundo também
já o defendem publicamente, incluindo o Serviço Nacional de Saúde Britânico,
Dietistas do Canadá e o Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica na
Austrália. Importante enfatizar a expressão “bem planeada”, já que uma
alimentação vegan não é necessariamente saudável. Podemos basear a nossa dieta
em “Oreos” e batatas fritas sem o
peso ético na consciência, mas não deixa de ser “junk food”.
Efetivamente,
não é só no plano ético e nutricional que este movimento ganha pontos. De
acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), um menor consumo de produtos
de origem animal é “necessário para salvar o mundo dos piores impactos das
alterações climáticas”.
A
agricultura agropecuária é uma das indústrias mais destrutivas no que diz
respeito à desflorestação, emissão de gases de efeito estufa e morte dos
oceanos. A notícia não é novidade. Já em 2010 o Programa das Nações Unidas para
o Meio Ambiente divulgava um relatório onde expunha que a agricultura de carne
e produtos lácteos responde por 70% do consumo mundial de água doce, 38% do uso
total da terra e 19% das emissões mundiais de gases do efeito estufa.
Rapidamente percebemos que o nosso futuro enquanto espécie depende também das
nossas escolhas à mesa.
Na
base do veganismo estão três pilares – animais, saúde e ambiente – que
justificam a escolha por uma vida com mais compaixão pelos outros, por nós
próprios e pelo planeta. Um sistema onde geneticamente modificamos,
artificialmente inseminamos e enclausuramos animais em pequenos espaços sem
condições não se justifica. É fácil abstrairmo-nos desta realidade enquanto
saboreamos um bitoque, mas num mundo onde a informação é uma constante, a
ignorância é uma escolha. A decisão é nossa.
Mariana Esteves

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