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Facebook: privacidade, eleições e impostos

As recentes polémicas sobre o Facebook trazem à luz diversos problemas: a falta de privacidade associada às redes sociais, a utilização indevida dos dados pessoais dos utilizadores, a utilização das redes sociais e de dados históricos de navegação com o objetivo de manipular eleições, como parece ser o caso das eleições presidenciais americanas de 2016 e do referendo de saída do Reino Unido da União Europeia, e a “fuga” aos impostos de grandes empresas do setor digital, como a Apple, a Google e o Facebook.

Assistiu-se, nos últimos anos, a mudanças profundas na sociedade e na maneira como interagimos uns com os outros. As redes sociais levaram a uma revolução na forma como comunicamos com os outros. Facilitadora da comunicação à distância, ponte entre solidões, a falta de privacidade é um dos principais pecados que lhes são apontados. É claro que a culpa não pode ser totalmente imputada às redes sociais. Afinal, somos nós que as criamos e as utilizamos diariamente. Não deixa de ser um pouco hipócrita a atitude de criticar as redes sociais por muitos daqueles que aí “exibem” as suas vidas privadas.

Mas não me compreendam mal, a violação da privacidade é um problema gravíssimo e a manutenção da separação entre a vida privada e pública é um dos desafios do século XXI.

O mundo tomou conhecimento de que a empresa “Cambridge Analytica” obteve os dados de 87 milhões de contas do Facebook, que depois vendeu à campanha eleitoral de Donald Trump por 5,9 milhões de dólares. Com esta informação foi possível a orientação personalizada de mensagens eleitorais pelo Facebook, adaptadas ao perfil de cada um dos eleitores, em particular, dos chamados “swing voters”. Desse modo, é inequívoco que a utilização de dados pessoais das contas de redes sociais foi um fator decisivo na chegada ao poder de Donald Trump.

Este escândalo teve um impacto muito negativo no Facebook, desde a chamada do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, a depor no Congresso americano, na Câmara dos Comuns britânica e no Parlamento Europeu até à sua queda na bolsa, desvalorizando cerca de 60 milhões de dólares (equivalente ao valor conjunto das empresas cotadas no PSI-20). Acima de tudo, verificou-se uma perda de confiança no Facebook por uma boa parte dos seus utilizadores, que se verificou pela “hashtag #DeleteFacebook”, e que não parece desaparecer com os pedidos de desculpa de Zuckerberg, que afirmou “We have a responsibility to protect your data, and if we can’t then we don’t deserve to serve you”, e das suas garantias de aumentar a segurança da sua rede.

Infelizmente, esta pode ser apenas a ponta do icebergue. Não sabemos quantas eleições terão sido afetadas por situações deste género e se outras empresas, à semelhança da “Cambridge Analytica”, terão procedido a manipulações eleitorais através do acesso a dados pessoais privilegiados. Por conseguinte, muitos esperam que intervenções semelhantes à de 2016 se repitam nas eleições intercalares americanas deste ano.

Assim, a recente polémica da utilização indevida de dados pessoais por parte da empresa “Cambridge Analytica” na eleição de Trump chamou mais uma vez a atenção para a falta de segurança das redes sociais e para a forma como podem ser utilizadas para influenciar eleições um pouco por todo o mundo. Logo, o que está em causa é a veracidade dos escrutínios públicos e, em última estância, a democracia liberal. Uma democracia sã e forte não se exprime apenas através de eleições, as quais podem ser alvo de manipulações (por exemplo, a partir do conhecimento de dados pessoais dos eleitores via Facebook), mas também através da separação de poderes, da existência de um Estado de Direito e de sociedades civis fortes, abertas e tolerantes.

Desse modo, as redes sociais são um dos principais meios de propagação da crescente onda de populismos e nacionalismos que procuram transformar o nosso sistema político em democracias “iliberais”, como existe na Rússia e até mesmo no seio da União Europeia na Hungria. São cada vez mais as pessoas que parecem relativizar a importância da liberdade de expressão e acreditar que a existência de uma democracia funcional não é importante para as suas vidas o que, juntamente com dificuldades económicas e um certo sentimento de rejeição social, abrem o caminho para os populismos.

Das implicações políticas das redes sociais passamos para o seu impacto na economia. A chamada “economia digital” é um dos motores da economia, registando ritmos de crescimento muito superiores à média (as principais empresas digitais crescem, em média, a um ritmo de 14% ao ano). No entanto, estas empresas pagam, em média a nível europeu, apenas 9,5% dos seus lucros contra 23,2% nas empresas de modelo “tradicional”, o que põe em causa a capacidade dos Estados de fornecer os serviços públicos e de garantir que estão criadas as condições para o desenvolvimento destas plataformas e de uma “Economia 4.0”, através de medidas como infraestruturas físicas e digitais de qualidade, formação e educação superior de excelência, criação de “hubs” tecnológicos e digitais e aposta em I&D.

A necessidade de repensar a tributação das empresas da chamada “economia digital” levou a que recentemente a Comissão Europeia tenha lançado duas propostas, as quais se inserem num conjunto de alternativas de financiamento do Orçamento Europeu.

Uma das propostas passa por uma reforma que permitiria aos Estados-Membros tributar lucros que sejam gerados no seu território, mesmo sem a presença física da empresa, sendo que os valores considerados para o seu cálculo tomariam em conta lucros de dados de utilizadores (exemplo: colocação de publicidade), serviços de conexão e outros serviços digitais, como subscrição a serviços “streaming”. Esta medida poderia eventualmente ser integrada no âmbito da Common Consolidated Corporate Tax Base (CCCTB), que entre outros objetivos pretende impedir que empresas multinacionais escondam em paraísos fiscais lucros que foram gerados num país da UE.

Já a outra proposta aplicar-se-ia a receitas criadas por atividades digitais que escapam, na totalidade, ao enquadramento fiscal atual. Este imposto indireto seria cobrado pelos Estados-Membros, onde os utilizadores das plataformas estão localizados, apenas às empresas com receitas totais de 750 milhões de euros e receitas na UE de 50 milhões de euros. A aplicação de uma taxa de 3% sobre receitas, onde o valor acrescentado é criado através da participação de utilizadores (como publicidade online e venda de dados de utilizadores), levaria a cerca de 5 mil milhões de euros em receitas.

Independentemente da medida que seja levada adiante, é certamente crucial que se proceda a uma reforma do sistema tributário, não apenas a nível nacional, mas também a nível europeu e internacional, de modo a que o tratamento fiscal seja equitativo, pagando cada empresa a sua “fair share” de impostos. É igualmente necessária uma mudança de paradigma dos Estados, de forma a prepará-los para a nova economia digital e os desafios que daí decorrem.

Concluindo, as redes sociais são plataformas que criam não só oportunidades, mas também desafios. Logo, para que o século XXI seja um período de desenvolvimento, prosperidade e de respeito pelos Direitos Humanos é necessário aproveitar ao máximo estas oportunidades, mas também estar atento, estabelecer barreiras entre a partilha de conteúdos e a privacidade e dinamizar, através de iniciativas privadas e públicas, a economia digital, o empreendedorismo e a investigação.

Nuno Sousa

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