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Evangelho empresarial segundo Champalimaud

António Champalimaud celebraria a sua centésima primavera no passado mês de Março. Perdão, António de Sommer Champalimaud, ou não fosse o apelido germânico valer-lhe um caso jurídico de 16 anos contra os irmãos (o célebre Caso Sommer), uma fuga para o México e um braço de ferro com Marcelo Caetano.


Contudo, há males que vêm por bem ou bens que vêm por mal. O mal, se o pesado termo tem aqui cabimento, dealbou com a aquisição por parte do empresário da fortuna do tio, onde se inseria a prestigiada empresa cimenteira – Os Cimentos de Leiria - despoletando toda esta polémica em torno do caso Sommer.

O futuro “magnata principal de Portugal”, que revitalizara, anteriormente, a antiga empresa do pai, entra, assim, para o mundo dos cimentos e para o restrito mundo dos grandes empresários portugueses. 

Os tempos são de fortes incentivos ao desenvolvimento da indústria nacional, com o tenaz plano de crescimento económico, executado por Salazar. A própria burguesia também o pretende e, por isso, Champalimaud gera uma fecunda aliança com o governo, que alargará a sua fortuna e o seu poder em Portugal, e na Europa, porque em Portugal pouco terá mais para conquistar.

Sendo administrador dos Cimentos de Leiria, expande-se na indústria cimenteira, com a aquisição da Companhia de Cimentos do Tejo (a atual Cimpor), com o apoio da Casa Bancária José Henriques Totta (que originará o Banco Totta & Açores, hoje Santander Totta) que lhe concede um empréstimo astronómico, com o aval estatal.

Dos cimentos para a metalurgia, o “administrador industrial” vence, em 1944, uma concessão dada pelo Presidente do Conselho, para a criação de uma Siderurgia Nacional que nasce 10 anos depois, com um alvará de exploração exclusiva de vários minérios. Passará a ter dois monopólios legais: o da cimenteira e este último.

Tudo isto do zero, numa clara ascensão a pulso, de uma empresa tecnicamente falida para um império, o sétimo maior da Europa. Com uma grande colaboração do inevitável António de Oliveira Salazar. Sim, porque não há filho sem pai, nem indústria sem Salazar.

Tal como o grupo Mello, mais conhecido, certamente, para o leitor, como CUF, o império de Champalimaud surgirá da indústria para a banca e, em 1960, este compra a seguradora Confiança, cujo dono detinha, também, o Banco Pinto & Sotto Mayor que se juntará ao restante lote de empresas que somam, em bolsa, uns irrisórios 40 milhões de contos (9,8 mil milhões de euros atualmente).

Serve esta descrição, ao estilo de Eça, para o leitor compreender a dimensão que o magnata alcançou. A partir daqui o céu passará a trevas, Salazar a cadáver e Champalimaud a mártir.


Em 1969, já com Marcelo Caetano no poder, o empresário refugia-se no México, após um mandado de detenção resultante do caso Sommer. O burguês, neste momento, se já não tinha uma lição para muitos desses bafientos empresários, que herdaram grandes grupos económicos, como José Manuel de Mello, dar-lha-á agora, com o governo como antípodas.

Efetivamente, o elo umbilical com o Estado encerra-se quando o novo estadista rouba a ideia do empresário de desenvolver o porto de Sines e instalar aí a sua própria refinaria petroquímica e terminal petrolífero, entregando-a ao grupo Mello e à Sonap (uma petrolífera nacional). Agora, pecadores sejam aqueles que achem que a CUF é culpada por explorar este infortúnio, quando apenas obedece a Marcelo Caetano. Se querem culpar alguém, que seja Champalimaud pela sua visão e dedicação, com o devido perdão da anacrónica voz.

Porém, se há quem duvide de tais características, certamente desconhece o maior escândalo do Marcelismo: a compra do BPA ao seu principal acionista António Cupertino de Miranda.

Champalimaud adquire 22,7% da instituição (150 mil ações), oriundos dos 38% que Cupertino de Miranda detinha, tudo isto em segredo, até à Assembleia Geral. Ao mesmo tempo, e com o desconhecimento daquele que lhe vendera ações, o empresário compra posições de outros grandes acionistas do banco com João Rocha (que hoje dá nome ao pavilhão sportinguista). Quando as empresas de Champalimaud veem créditos rejeitados pelo BPA, o magnata dá a notícia que o presidente do banco não contava: este e João Rocha já detêm a maioria do BPA. Marcelo Caetano aprova imediatamente um decreto, com efeitos retroativos, que obriga a que um negócio como este tenha de passar pelo Ministro das Finanças, impedindo assim o brilhante plano do empresário. Nota-se, indubitavelmente, a tentativa do Estado de condicionar as decisões do empresário, um governo que se diz defensor do capitalismo e da progressão portuguesa. Neste momento, o magnata eleva-se ao nível de Marcelo Caetano, como David se elevou ao nível de Golias, e todos conhecem o seu desfecho.

O 25 de Abril em nada alterou. Este tem o governo, agora antimonopolista, como rival numa refrega interminável. Mesmo assim cria outros impérios fora de Portugal, com perseguições, contas congeladas, empresas e bancos nacionalizados. Ainda, aquando das privatizações cavaquistas, como resposta a todos os atos atentatórios estatais, compra o seu antigo banco e o do grupo Mello vendendo-o ao Santander, o famoso banco espanhol.

Bem sei que não vivemos numa Europa mercantilista, com as suas rígidas medidas protecionistas, nem seria o desejável, porém o Estado em vez de apostar numa busca desenfreada e incessante pelo investimento estrangeiro, não seria estulto da sua parte apoiar estes grandes burgueses nacionais. Afinal de contas, são eles os grandes impulsionadores do crescimento económico. Champalimaud, Espírito Santo, famílias que marcaram a vida dos portugueses durante décadas, hoje substituídas por empresários chineses ou banqueiros espanhóis, os novos “Donos Disto Tudo”. Isto se daqui a uns anos não formos nós, portugueses, reduzidos a ativos presentes no relatório anual destas entidades, mas vamos prosseguir, porque destes acionistas só interessa o lucro; a nós só interessa o passado empresarial português vitorioso, o de que os nossos avós nos dizem como sendo economicamente espetacular, mas socialmente catastrófico.

Contudo, ao contrário do que muitos desejariam, o empresário não quis encerrar a sua história. Hoje quem entra na barra do Tejo admira uma moderna e prestigiada fundação, que recebe prémios mundiais. Representa toda a herança do magnata. Mas já não fora construída com o seu cimento, nem com os seus metais, mas sim pela sua visão que, essa, só à fundação pertence e a António Champalimaud.

Duarte Brito

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