A
clássica frase “esta juventude de hoje em dia” é geralmente proferida por
pessoas idosas e de meia-idade quando pretendem afirmar que as gerações mais novas
são menos responsáveis, mais impulsivas, ou que não respeitam os mais velhos
nem as regras da sociedade em que vivem. No entanto, esta caraterização das
gerações mais novas como sendo divergentes não é de agora. Sempre foi assim.
O
famoso escritor britânico George Orwell um dia afirmou que “qualquer geração se
imagina como sendo mais inteligente do que a anterior e mais sábia que a seguinte”.
O sociólogo David Finkelhor, da Universidade de New Hampshire, cunhou um termo
que bem pode definir este sentimento: “juvenoia”.
Finkelhor define “juvenoia” como
sendo o medo exagerado quanto à influência das mudanças sociais sobre as
crianças e os jovens. Mas, será esse medo justificado?
Exemplos
da desconfiança perante os mais jovens remontam às origens do pensamento
filosófico. O filósofo grego Aristóteles, no século IV a.C., no segundo livro
da sua obra Retórica, define os
jovens como sendo “irritadiços, sem autocontrolo e ansiosos por superioridade”.
“Amam a honra e a vitória mais do que o dinheiro, e prefeririam realizar um ato
nobre a um ato útil” diz Aristóteles. “Acham que sabem tudo” e essa é “a fonte
de todos os seus erros”, conclui.
Também
o escritor francês Romain Rolland, prémio nobel da literatura em 1915, escreveu
sobre esta temática. Disse, referindo-se aos jovens do início do séc. XX, que
estes eram “superficiais”, “apaixonados pelo prazer e por jogos violentos” e “facilmente
enganados pela retórica”. Tudo isto cerca de cem anos antes das redes sociais virtuais,
onde o que conta são as fotos lá publicadas e não a vida real, e dos jogos de
vídeo considerados por muitos como sendo extremamente violentos.
Podem-se
atribuir várias razões ao facto dos jovens serem como são e de terem as
características que têm. Na sua essência os jovens têm dois atributos
essenciais, que saltam à vista, e que melhor os definem. E esses atributos
influenciam-se mutuamente. Em primeiro lugar, a revolta, que pode ser contra os
pais, contra os professores ou contra a sociedade e as suas regras. Em segundo
lugar, o idealismo. Os jovens revoltam-se contra uma determinada regra, algo
que está estabelecido, porque pensam que isso está errado. O idealismo dos
jovens é, muitas vezes, baseado na sua ideia de um mundo perfeito, algo que
pode advir da sua pouca experiência de vida.
Assim,
pode-se dizer dos jovens que, todos eles, de uma maneira ou de outra, gostariam
de mudar o mundo. Eu, como jovem, garanto que gostaria de o fazer. E,
conseguindo mudar o mundo, esses jovens conseguem visualizar a sua ideia de um
mundo perfeito ou, pelo menos, um pouco melhor do que estava antes, e conseguem
provar que os mais velhos, aqueles que os acusaram de ser uma geração perdida,
estavam errados ao fazê-lo.
E
como é que os jovens conseguiram mudar o mundo até agora? Através de revoluções
culturais, por exemplo. No período entre o início dos anos 60 e meados da
década de 70, com a chamada revolução de consciência, um movimento de
contracultura, formado pelos chamados “hippies”. Também na década de 70, surge
o movimento punk, com um objetivo de
contracultura semelhante ao dos hippies
mas com uma atitude diferente. Outros exemplos se podem dar, como o surgimento
do grunge e até de movimentos como o Occupy Wall Street. Estas manifestações
trouxeram à superfície discussões importantes que se devia ter, sobre guerras,
conflitos raciais e desemprego jovem ou sobre questões como a orientação sexual
ou a igualdade de género.
Uma
outra forma dos jovens mudarem o mundo à sua maneira é através do
empreendedorismo. Grande parte das empresas que mudaram o mundo e que tiveram
mais impacto na nossa vida e na sociedade em geral foram criadas por jovens. A
maior parte dessas empresas são, obviamente, do setor das tecnologias. Temos
como exemplo a Microsoft, a Apple, a Google ou o Facebook. Como se costuma dizer
no setor tecnológico, as pessoas que trabalham pelo dinheiro não têm tanto
sucesso como as que trabalham por amor ao que fazem. Muitas dessas empresas
foram criadas com um princípio idealista, característico das gerações mais
jovens. O próprio Steve Jobs admitiu numa entrevista no início da década de 80
que “uma boa altura para se ser idealista, é antes de se ter 30 anos”.
A
“juvenoia” ainda existe. Podemos
sempre tentar perceber as razões que levam a que continue a existir este
fenómeno hoje, em relação aos “millennials”.
Será que esta geração está perdida por causa do uso exagerado de “smartphones”, “tablets” e outros “gadgets”?
Será que esta geração está perdida por usar tantas palavras emprestadas da
língua inglesa como smartphones, tablets ou gadgets? Ou será a “juvenoia”
apenas um fenómeno natural, em que os mais velhos se preocupam com os mais
novos, num mundo em mudança permanente? Afinal de contas, a juventude, composta
por pessoas dinâmicas, empreendedoras e solidárias, vai com certeza acabar por
tornar o mundo num lugar socialmente mais evoluído. Eu acredito que sim. E por
isso também acredito nesta juventude de hoje em dia.
Francisco Centeno

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