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Remate desafinado

11 de maio de 2013 e 10 de julho de 2016. Estas datas representam dois dos dias mais felizes da minha vida. É certo que a minha vida também não é grande coisa, mas estes dias não foram para pouco, pois também representam dos momentos mais infelizes da vida de muitos benfiquistas e franceses. Para aqueles que têm o infortúnio de ser benfiquistas e franceses simultaneamente, deverão atribuir a responsabilidade ao Estado Novo, que levou milhares de benfiquistas a emigrarem para França nos anos 60. Era previsível que alguns deles fossem ter filhos e netos, e como tal, Salazar, de forma imprudente, sujeitou as segundas e terceiras gerações de emigrantes aos remates de meia distância de Kelvin e de Éder (cujos respetivos pais portugueses festejaram).


Numa das suas crónicas na Visão, da boca do inferno, Ricardo Araújo Pereira insurge-se heroicamente contra os olhares sobranceiros sobre o Futebol. RAP responde-lhes citando J. B. Priesley: “Definir Futebol como 22 mercenários a correr atrás de uma bola equivale a dizer que um violino é madeira e corda de tripa, e que o Hamlet não é mais que papel e tinta.” Para ele, Futebol é alegria e Eusébio é Deus, porque, para muita gente, Eusébio é o epítome da alegria. Estas palavras, vindas de um ateu devoto, fazem adivinhar que há algo realmente mágico nos desportos competitivos, ou como se resume em Portugal, Futebol.

É certo que a nona sinfonia de Beethoven, no seu realismo mais puro, são apenas conjuntos de “cordas de tripa” a vibrar, percussão a ressoar e fluxos de ar provenientes dos músicos que levam caminhos diversos pelos instrumentos de sopro. Todos eles emitem ondas sonoras que se propagam pelo ar e são descodificadas pelo nosso cérebro. Mas como português que festejou com alegria desmesurada o golo do Éder, também vejo o Futebol como mais do que a frase supracitada o resume.

Claramente, há algo quase espiritual que nos faz vibrar em êxtase quando ouvimos a marcha turca de Mozart ou vemos o Kelvin a marcar aos 92. No entanto, Mozart não leva ninguém ao desespero, a não ser Salieri, o seu arquirrival à época. Já Kelvin, por seu lado, deixou muitas pessoas com lágrimas de euforia e próximas de um enfarte agudo do miocárdio. Mas para os portistas terem atingido a felicidade plena naquele mítico 11 de maio, a maioria do país, incluindo RAP, teve de atingir a infelicidade plena. É a desvantagem do Futebol, não há vencedor sem derrotado, choro de alegria sem choro de tristeza nem filho sem prostituta.

Futebol não são só 22 mercenários a correr atrás de uma bola, nem a música é só a propagação das ondas sonoras. Mas ainda está para acontecer, durante um concerto de música clássica, um membro da plateia levantar-se a meio do 3º andamento e, a plenos pulmões, acusar a progenitora do maestro de ser uma profissional do sexo. Ou o primeiro violinista, enquanto executa um solo, receber um coro de assobios e sugestões de idas para locais onde nem a pessoa mais diminuta caberia. Também ainda não foi anunciada a primeira sessão de UFC Street entre aqueles que preferem a orquestra metropolitana de Lisboa e os que gostam mais da orquestra sinfónica do Porto. Em semana de jornada europeia, nenhum destes senhores se envolverá em confrontos com apoiantes da orquestra filarmónica real de Liverpool. E mesmo admitindo que alguma destas situações ocorre (em 7000 milhões de pessoas, há sempre alguma que tem a capacidade para nos surpreender), nunca poderá ser com a frequência a que se assiste num estádio de Futebol. Se assim fosse, o espetáculo não passaria do primeiro minuto e a sala Suggia da Casa da Música teria de encerrar durante um mês após cada concerto para reparações extensivas e para retirarem os isqueiros do palco.

Apesar de tudo, os coros são um ponto comum entre o Futebol e a música clássica. Enquanto uns estão vestidos a rigor, os outros estão despidos a rigor. A diferença nota-se apenas após o início da canção, em que nas Bodas de Fígaro se opta por um italiano erudito e os superdragões preferem um português mais terra a terra.

Jorge Gonçalves

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