Avançar para o conteúdo principal

Orçamento da UE: mitos, factos e futuro

“A União Europeia é inútil e ineficiente. A maior parte do orçamento da UE é utilizado em instituições burocráticas localizadas em Bruxelas e Estrasburgo. As instituições europeias não são democráticas…”

Estas são muitas das opiniões e críticas que ouvimos recorrentemente sobre a União Europeia. Comum a estas críticas encontra-se a ideia de uma máquina burocrática ineficiente, longínqua e tecnocrática.

Sejamos sinceros, é verdade que a União Europeia possui muitas falhas, desde a falta de solidariedade entre Estados-membros à lentidão na tomada de decisões (como se verificou na crise económica e das dívidas soberanas e na crise dos migrantes), passando por gastos desnecessários, como é o caso da mudança mensal do Parlamento Europeu para Estrasburgo, e por um certo distanciamento dos cidadãos em relação ao projeto europeu e às suas complexas instituições, como se verifica pela baixa participação nas eleições europeias (que em 2014, em Portugal, atingiu um mínimo histórico de 33,8%).


No entanto, é preciso desmistificar muitas opiniões generalizadas sobre a UE que são erradas. Contra a imagem de uma máquina burocrática despesista está o facto de que os gastos em administração representam apenas 6% do Orçamento da UE e há muito que estabilizaram.

A questão é legítima: como é repartido o Orçamento da EU, quais as suas prioridades e de que forma nos beneficia no nosso dia-a-dia?

O Orçamento da UE representa apenas 1% do PIB dos estados-membros, cerca de 160 mil milhões de euros anualmente, figura irrisória se compararmos com o valor médio de 49% do PIB que representam os orçamentos nacionais. Assim, é um verdadeiro milagre que se consiga, com esta verba, num conjunto de países com mais de 500 milhões de habitantes, apoiar a agricultura, reforçar a coesão territorial, económica e social, o desenvolvimento rural e a cooperação transfronteiriça, apoiar as PME’s, incentivar a inovação e as start-ups, construir infraestruturas físicas e digitais, providenciar ajuda a refugiados e migrantes e ainda lutar contra as alterações climáticas.

No que diz respeito à sua repartição, é de destacar que as principais parcelas do Orçamento da UE integram as rubricas “Crescimento Sustentável: Recursos Naturais”, que inclui a agricultura, as pescas e o desenvolvimento rural e que possui um valor de 39% do total do orçamento, e “Coesão Económica, Social e Territorial” com um valor de 34% do total. Estes investimentos, em particular na política de coesão, têm sido essenciais para o crescimento económico dos estados-membros, incluindo de Portugal, tendo permitido diminuir as disparidades entre regiões, aproximar os cidadãos e potencializar recursos económicos e humanos.

Este papel é claro quando analisamos os dados estatísticos: os investimentos em política de coesão, entre 2007 e 2013, levaram a um aumento adicional de 4% do PIB, sendo o efeito multiplicador de 2,74 € no PIB por cada euro investido. É preciso assinalar que mais de 80% do investimento público português, no período 2015-2017, provém dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento (FEEI), demonstrando o papel essencial que o Orçamento da UE e, em particular, a política de coesão tem na economia portuguesa, possuindo um claro papel de estabilização macroeconómica em períodos em que, por constrangimentos orçamentais, o valor do investimento público se vê significativamente reduzido.

Este processo de atribuição de fundos não é um processo opaco, decidido em Bruxelas. Cada quadro financeiro plurianual, no qual são definidos os objetivos e os valores a atribuir a cada fundo e área de implementação, tem uma duração de 7 anos, estando a meio o período 2014-2020, que tem sido conhecido no nosso país como Portugal 2020. A atribuição dos fundos dentro de cada programa compete a cada país e, principalmente, a cada região, nível ao qual são tomadas a maior parte das decisões, que no caso da região Norte compete à CCDRN (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte). A sua aplicação é depois monitorizada pela Comissão Europeia que produz relatórios anuais.

O impacto do Orçamento Europeu vai muito além das políticas de coesão e da agricultura, já que 21% do orçamento é utilizado em projetos que pretendem combater as alterações climáticas e tem como um dos seus principais objetivos “um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo”.

Dessa forma, os diversos fundos europeus procuram apoiar as PME’s através de programas como o Programa para a Competitividade das Empresas e das PME’s (COSME), incentivar a inovação através de programas como o Horizonte 2020, que apoiaram, entre outros, os vencedores dos Prémios Nobel da Química de 2016 e 2017, apoiar o emprego jovem e as qualificações laborais através do Fundo Social Europeu (FSE) e da Iniciativa Emprego Jovem, levar a que, todos os anos, mais de 570 mil Europeus participem em projetos de mobilidade no âmbito do programa Erasmus+, acolher os refugiados (ainda que de uma forma insuficiente e incompleta) através do Fundo de Segurança Interna, do Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração e da Agência Europeia de Guarda de Fronteiras e Costeira, ser um dos maiores contribuintes para ajuda humanitária, ajudar as vítimas e a reconstrução em regiões afetadas por desastres naturais através do Fundo Europeu de Solidariedade e estimular o investimento através de diversos fundos e, em particular, pelo recente Fundo Europeu de Investimentos Estratégicos (FEIE), conhecido como Plano Juncker, que adota uma perspetiva diferente dos mais “clássicos” fundos estruturais (com maior foco na coesão), sendo este, na verdade, um instrumento financeiro, desenvolvido em parceria com o Banco Europeu de Investimento (BEI), que apoia projetos viáveis que não conseguem encontrar financiamento nos mercados financeiros e, em que por cada euro aplicado se espera que sejam mobilizados 15 euros de investimento total.

Perguntar-se-ão, certamente, quais são as fontes de financiamento do Orçamento da UE. A maior parcela (71%), atualmente, é uma contribuição baseada no PIB de cada estado-membro, sendo que as restantes fontes de financiamento são uma contribuição baseada nas receitas de IVA de cada país e direitos alfandegários. Esta forma de financiamento é claramente limitada e insuficiente para as necessidades que a União enfrenta atualmente. Urge, por isso, diversificar as fontes de financiamento e introduzir recursos próprios da UE para financiar o seu orçamento. Neste momento, encontram-se muitas propostas em cima da mesa, tais como um imposto sobre o carbono, um imposto sobre as transações financeiras, e senhoriagem (isto é, um imposto sobre a quantidade de moeda emitida pelo BCE), sendo que se espera que, nos próximos anos, seja adotada pelo menos uma dessas soluções, permitindo cobrir o “buraco” nas receitas que certamente se verificará com a saída do Reino Unido da UE.

Temos vindo a assistir, nos últimos meses, ao início da discussão a nível nacional e europeu das prioridades para o quadro financeiro plurianual pós-2020. Esta é uma discussão importantíssima não só para o futuro da União Europeia, mas também para o futuro das economias dos estados-membros, para a convergência entre regiões e para o combate ao aquecimento global e o cumprimento do Acordo de Paris, que necessita, não só da participação dos políticos portugueses e europeus, mas sim de todos os cidadãos europeus, tendo as universidades um importante papel a desempenhar no incentivo ao debate e ao envolvimento de toda a comunidade académica. Assim, incentivo todos os leitores do Fepiano a envolverem-se neste debate, em refletirem de que maneira a União Europeia deve intervir de forma a maximizar os seus recursos, a incentivar a economia e a proporcionar um maior bem-estar a todos os europeus.

Na minha opinião, para o período pós-2020 é necessário simplificar o processo de atribuição de fundos, tornando a sua implementação mais rápida, a sua complementaridade mais eficiente, a sua alocação mais congruente com os desafios e as prioridades da UE e a sua utilização mais acessível e compreensível para a maioria dos cidadãos. Concluindo, penso que as prioridades da ação da UE devem passar por uma maior aposta em áreas em que se possa obter maior valor acrescentado, no apoio às PME’s, à investigação e inovação, numa maior aposta na inclusão social, emprego, qualificações, saúde, infraestrutura social e digital, na diminuição das desigualdades, na convergência entre regiões e países europeus, numa ação mais clara, rápida e humana às questões das migrações e da globalização e numa estratégia ambiciosa no apoio às energias renováveis, na liderança da transição energética e ambiental, e num crescimento sustentável. Enfim, é preciso um Orçamento que capacite uma União Europeia que se deseja mais democrática, humanitária e inovadora, que ocupe o seu lugar como líder mundial e polo dinamizador do desenvolvimento económico, social e ambiental.

Nuno Sousa

Comentários

Mais lidas

Lobos em pele de cordeiro?

8 de janeiro de 2018. O até ali impensável acontece. Pyongyang propõe enviar uma delegação de alto nível, composta por atletas e dirigentes, aos Jogos Olímpicos de Inverno que este ano se realizarão na vizinha PyeongChang, Coreia do Sul. Desde 2016 que as duas “irmãs” não encetavam diálogos oficiais e, aliás, esta abertura diplomática poderá até causar alguma estranheza se tivermos em conta que em 1988, quando Seul recebeu os Jogos Olímpicos – de verão – Kim Il-sung – avô de Kim Jong-un – decretou o boicote ao evento e, além disso, provocou a queda de um avião comercial dias antes do evento, vitimando cerca de 100 pessoas. Alicerçada no desporto, esta aproximação sempre foi sobejamente desejada pela vizinha do sul, que, entre outros fatores, e segundo o seu ministro para a Unificação, tem como objetivo diminuir a tensão militar entre as duas nações e, também, voltar a juntar muitas das famílias que se viram separadas pela guerra da Coreia, conflito extremamente sangrento – os mortos e...

A Universidade pode e deve ser diferente?

É inalienável da nossa condição de estudantes do ensino superior a interrogação em questão: “A Universidade pode e deve ser diferente?”. Em primeiro lugar, o senso comum dita que o ensino superior é um estágio propedêutico essencial para o ingresso bem-sucedido no mercado laboral actual. Basicamente, as universidades são responsáveis pela criação de capital humano eficiente, que, por sua vez, instiga o progresso técnico que é, nesta linha de causalidade, segundo os modelos de crescimento económico, o principal percursor do crescimento das variáveis “per capita”. E, no final, vivemos todos felizes na abundância material! Aliás, essa visão puramente pragmática vinculada à primazia da empregabilidade como métrica única da qualidade e potencial de um dado “curso” consubstancia-se na legislação portuguesa para a acreditação dos cursos e definição do número de vagas. Por outro lado, antagonizando esta realidade actual do ensino superior, há um coro de vozes que identifica ...