21 de dezembro. Uma hora da tarde em
Madrid, menos uma em Lisboa. Jose María Sánchez Martinez apita para o início de
mais um clássico dos clássicos da La Liga.
Em todo o mundo, quase seiscentos e cinquenta milhões de adeptos acercam-se das
televisões para desfrutar e também sofrer com cada finta e toque na bola.
Contudo, no leste da península Ibérica, os cerca de cinco milhões a quem esta
partida mais interessa, apesar de permanentemente agarrados aos cachecóis e
beijando o emblema nas camisolas, não é Messi e companhia que mais importa. No
dia 21 de dezembro outros pensamentos, deveras mais importantes, atormentavam a
mente de cada catalão.
No papel, Inés Arrimadas e o seu
Ciudadanos – contra a independência catalã – foram os vencedores do dia, tendo
registado quase 26% dos votos – votaram 79% dos catalães inscritos. No entanto,
este sucesso revelou-se apenas teórico – ou mais uma derrota para os
constitucionalistas? – uma vez que os partidos pro-independência mantiveram a
maioria dos assentos no parlamento catalão, 70 dos 135, tendo perdido apenas(!)
dois comparativamente às eleições de 2015 - que “entronizaram” Puigdemont. Ora,
estes resultados deixam a região num “limbo” que, verdade seja dita, não parece
ter fim à vista. Por um lado, Arrimadas, apesar de incitada pelo governo
central a iniciar conversações com o intuito de formar governo, prefere
aguardar para ver como se irão organizar as forças nacionalistas encabeçadas
pelo antigo presidente da Generalitat, que, por sua vez, viu Mariano Rajoy
rejeitar o seu pedido para diálogo. O presidente do governo espanhol é, assim,
por estes dias, o alvo de todo o fogo cruzado decorrente dos resultados
eleitorais. Na sua mensagem de Natal, Filipe VI apelou ao respeito da
pluralidade e apontou ao caminho da “coexistência”, “serenidade”,
“estabilidade” e “respeito mútuo”. Além disso, acusou determinadas instituições
catalãs de “deslealdade” e “conduta irresponsável”. Uma mensagem bem vincada e
rígida de um monarca que enfrenta umas das maiores crises políticas do século
XXI.
Não obstante, o caminho idealizado por
Filipe será um dos, senão, o mais díficil de trilhar. Com uma Catalunha
extremamente fraturada, sem soluções governativas – é bom relembrar que
Puigdemont e mais 6 deputados eleitos ainda se encontram em exílio, facto que
impossibilita a sua tomada de posse e pode, no futuro, vir a criar ainda mais
tensões – e, acima de tudo, desprovida de um rumo, de um “objetivo” – seja ele
pro ou anti-independência – adivinha-se um futuro espinhoso para a região,
para Espanha e para todo o continente Europeu. E a “procissão” ainda agora vai
“no adro”. O PSOE de Pedro Sanchez irá, certamente, tentar tirar proveito de
toda a situação para ganhar o voto dos espanhóis, sobretudo, numa altura em que
já se começam a sentir, de forma mais evidente, as repercussões da indefinição
catalã – o turismo na região caiu 2,3% no mês de novembro e os mercados têm
vindo a sofrer quebras desde o dia das eleições. Para piorar ainda mais o
“state of affairs” assistiu-se no decorrer desta semana ao surgimento de um
movimento unionista da região de Tabarnia – inclui Barcelona e Tarragona – que
pretende ser uma comunidade autónoma, independente da Catalunha, mas
pertencente a Espanha.
Os tempos são de dúvida e incerteza, no
entanto, e assim como no “El Clásico”, enquanto a “bola” rolar, há história
para contar.
Gonçalo de Sousa Tavares Pé d´Arca

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