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Vale do Silício

Retrospetiva: humana, racional, necessária; consequência do desfecho de alguma coisa, óculos novos e graduados para o sujeito que agora se coloca por fora com a certeza de que fará um julgamento relativamente melhor do que anteriormente.

Ensinam-nos o conceito de “trade-off” e logo à partida aprendemos a sua aplicabilidade; não obstante, é de relevar o seguinte: aplicá-lo não é o mesmo que entender as consequências da decisão em toda a sua extensão, porque ao contrário daquilo que se encontra modelizado, os agentes, na sua maioria, não são racionais.

O conceito de estudante foi revolucionariamente revertido. Fazer parte da FEP é equiparável a uma contínua experiência de recrutamento. A balança do “trade-off” vai descaindo sucessivamente na direção inversa à da convenção popular de que o papel do estudante é ser um estudante e somos imergidos no “pot pourri” associativista que tanto acreditamos ser o primeiro passo para a vida plena e certa.

    Pied Piper of Hamelin

Circunstritos a um sistema infinitamente maior que nós para o conseguirmos mudar, acabamos por embarcar na homogeneização para com o meio. Dispomos de muitas alternativas e aqueles que vêm antes de nós falam-nos, sobranceiramente, de uma posição em que também nós vamos desejar querer estar, porque o “pitch” que nos fazem é eloquente e sublime, porque o futuro só se concretiza na medida do nó da gravata que convém irmos treinando, porque são precisos escapes para a estranheza que é entrar na Faculdade e impera arranjar como passar o tempo. Duas considerações: primeiramente, nada disto é necessariamente mau, porque é altamente plausível encarar este tipo de abordagem como uma receita extremamente funcional e com provas dadas suficientes para produzir muito bons resultados no longo prazo, considerando aquela que é a métrica usualmente tida em conta para classificar “sucesso”: rendimento, casa, carro, reconhecimento pelo semelhante; em segundo lugar, o tipo de regressão mental que faço é altamente subjetivo e contraditório, o devaneio consciente de alguém que reconhece as valias do sistema, mas que teme a sua incompatibilidade em alguns pontos inerentes à sua própria condição humana, naquela que será a minha métrica altamente subjetiva e pessoal de contabilizar o meu próprio sucesso enquanto indivíduo. Portanto, reservo-me ao direito de ser contraditório na ação: não é uma urgência que me preocupe.

A inevitável realidade é a de que nada é líquido: será falacioso cair na espiral da crença de que todo o esforço será retribuído numa relação de troca equivalente, pois, à semelhança de tudo o resto, impõe-se a criação de expectativas conservadoras, bem por baixo, para salvaguardar desgostos e consequências bastante mais realistas do que aquelas que a nossa visão turva fazia antecipar. Que bons são estes óculos que fui arranjar.

É-nos intrínseca a vontade de fazer escalar algum tipo de sentimento de pertença. Como animal gregário, fazer parte de alguma coisa é basilar no cumprimento de um certo propósito transcendente que acreditamos assemelhar-se à verdadeira concretização de algo como um “legado”. Olharemos para este tempo com Saudade, verteremos uma lagrimita singela ao colocar as coisas pelas quais mais fizemos na vida nas mãos daqueles que nos sucedem. Damos por nós no extremo do “trade-off” e sentimos que a vida perde alguma graça: é tão difícil não ter como passar o tempo; mas Ele vai passando e os modelos permanecem imutáveis.

Aparentemente, os agentes continuam a ser racionais.

Tiago Ferreira Meireles

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