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O Eleito

Em política o poder é efémero mas o seu exercício pode ser eterno.

Pedro Passos Coelho herdou um país pequeno, falido e humilhado. Em 2011, Portugal era um país triste. Era um país sem ânimo, pobre e que contava os tostões. Era um país que não percebia o que tinha acontecido e que desesperava com medo do futuro. Os dias arrastavam-se, pesados, frios, negros.

A realidade é hoje bem diferente. Portugal mudou.



Foi Passos o obreiro desta mudança. Passos percebeu o que acontecera em Portugal e fez da salvação nacional o seu desígnio pessoal. Governou sob vigilância atenta da Troika, mas nunca como um mero encarregado de Bruxelas. Teve sempre um objectivo em mente: fazer de Portugal um país melhor. Foi criticado, vaiado, insultado. Mas não cedeu. Nunca cedeu. Não é do seu carácter íntegro e honrado.

Mas, afinal, o que poderia ter feito de diferente? Haveria outra alternativa? Teria Passos escolhido o caminho difícil quando um outro mais acessível estava ao seu alcance? Não. Se já na altura era evidente que não havia alternativa a um longo e penoso Calvário, hoje, a anos de distância e sabendo o que aconteceu desde então, temos a certeza que Passos fez a única coisa que podia fazer. Ninguém faria diferente e não estou certo de que alguém o fizesse melhor.

Passos sabia que o caminho seria difícil. E, ao contrário do que sempre tentaram representar, Passos não é um político frio, insensível e desumano. Sabia que o que tinha a fazer provocaria dor, angústia e sofrimento. Mas era necessário. Passos sabia que fazendo o que tinha a fazer ia mudar Portugal. E Passos queria essa mudança. Ao contrário de outros que governam à vista, Passos sempre pensou no futuro. Queria um país mais justo, eficiente e produtivo. Um país moderno e aberto ao mundo. Um país que crescesse e prosperasse e que não se contentasse em seguir o mundo por arrasto.

E Portugal queria Passos. Depois de quatro anos a governar sob ferro e fogo, foi reeleito. Passos tinha agora a oportunidade de construir um novo Portugal, o país que ambicionava e que sabia ser possível. Mas não o deixaram. Foi derrubado. Um “golpe de Estado constitucional” afastou-o e impediu-o de terminar o começara quatro anos antes. O cântico das “sereias do facilitismo” foi mais forte e Portugal entregou-se novamente nos braços daqueles que o conduziram ao abismo.

Mas Passos não desistiu. Não encolheu os braços à espera que o poder lhe voltasse a cair no colo. Se era como deputado que podia agora ajudar a construir um Portugal melhor, seria como deputado que ia empreender nessa missão toda a sua energia. Passos sabia que o trabalho não estava concluído e que muita coisa havia ainda por fazer. Sabia que ao mínimo deslize tudo aquilo que construíra ruiria por completo.

Foram dois longos anos durante os quais alertou para o perigo iminente a que Portugal se sujeitava. Mas ninguém o queria ouvir. O país, inebriado por uma aparente realidade de bonança, começou a vê-lo como um profeta da desgraça. Mas, mais uma vez continuou. Sabia que era essa a cruz que devia carregar, custasse o que custasse.

E carregou-a, quase sempre sozinho, o máximo que conseguiu. O apoio do partido foi esmorecendo e internamente, acredita-se, começou a pedir o seu afastamento. Foi-se aguentando até que um mau resultado nas autárquicas precipitou a sua saída. Inglória, injusta e imerecida.

Será este o fim de Pedro Passos Coelho? Ou será somente o início da sua travessia do deserto político? Pensará, porventura, em acumular o capital político que lhe poderá permitir regressar quando as suas previsões se concretizarem? Não o sabemos, pelo menos por enquanto. Regresse ou não, ninguém poderá apagar o que fez. O tempo encarregar-se-á de dar a Passos o honroso lugar que merece na História de Portugal.

E os portugueses? Poderemos culpá-los por quererem uma vida mais folgada? Não terão razão em seguir aqueles que acenam com facilidades? Afinal de contas, Passos não prometia um futuro risonho, pelo menos não no imediato. E a chegada do “diabo” que tanto preconizava tarda em consumar-se. A economia parece estar bem. O desemprego vai baixando, os dependentes do Estado vão-se calando e as reformas vão aumentando uns trocos. Para a maioria isto chega. O futuro? Logo se vê.

Não digo que estejamos mal. Portugal é hoje um país alegre. Dá gosto ver os portugueses finalmente a ter orgulho no seu país e a não olhar com inferioridade para tudo o que é estrangeiro. Pelo contrário, os portugueses hoje em dia sentem que são tão capazes como os demais e isso é obra de Passos que os obrigou a olhar lá para fora. Não estamos mal mas podíamos estar melhor, muito melhor.

E é precisamente isso que distingue Passos. Depois de um mandato em que tirou Portugal do Inferno onde outros o deixaram, podia ceder ao populismo e prometer um futuro fácil e tranquilo. Não foi isso que fez. Manteve a sua palavra por mais difícil que fosse. Não teve sorte. A cruz que carregava é a mesma em que é hoje crucificado. Já ninguém quer saber do futuro. O presente é bom e basta-nos.

Não digo que Passos seja um santo, mas é sem dúvida um dos melhores políticos que a democracia portuguesa nos deu, definitivamente o melhor no século XXI. Cedeu, como todos, de quando em quando a uma ou outra tentação mais eleitoralista, não foi tão longe como deveria ter ido, mas, no essencial sempre foi firme e correcto.

Na hora da despedida resta-me dizer: 
“Perdoai-lhes, Pedro, porque não sabem o que fazem.”

José Mário Sousa

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