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de Abril de 1930, é fim da tarde e a noite começa a cair sobre Londres.
Multidões atrapalhadas de trabalhadores cansados aventuram-se em avenidas ruidosas,
por entre o nevoeiro espesso, no frio trajeto de volta a casa no final de mais
um dia. Quem neste momento olhasse de cima para a capital do império britânico
apenas conseguiria ver uma amálgama de ansiedade, pressa e fadiga em que a
chuva miúda e ânsia de todo este povo se fundem, como o taciturno nevoeiro se
funde com a poluição que assombra a cidade.
Já na periferia, chegados a seus
destinos, toda esta gente espera para ouvir na rádio o boletim noticioso da
BBC. Esse que todos os dias é transmitido às 20h45. E assim continuará a ser
transmitido, mesmo nas noites em que as bombas nazis caírem sobre Londres,
impreterivelmente, às 20h45, para fazer uma pequena síntese informativa dos
acontecimentos do dia.
Esperam nervosos por eventuais notícias
das cada vez mais frequentes revoltas nas colónias britânicas lá longe na
Índia, ou talvez novidades dos fascistas de Mussolini que recentemente chegaram
ao poder em Itália; ou, quem sabe, desenvolvimentos nas negociações sindicais
que os possam afetar. Esperam inquietos nas suas cadeiras de estilo vitoriano
que parecem de momento não oferecer qualquer conforto.
No centro, junto a Westminster, o
Big Ben marca as 20h45. Os trabalhadores intranquilos inclinam-se para a frente
das cadeiras para mais perto dos rádios, e escutam finalmente a voz do locutor
que diz:
«Good Evening. Today is Good Friday [1]. There is no news. Please enjoy 15 minutes of light
piano music».
Voltam a encostar-se nas cadeiras, e
agora ao som de Chopin, todos eles suspiram em uníssono.
Desde esta noite muito mudou no
mundo do jornalismo. Numa indústria que conta com cadeias televisivas de 24
horas de cobertura noticiosa perpétua, e com a sede por audiências que
alimentem os publicitários que sustentam grande parte dos media, seria difícil
imaginar uma sexta-feira, por mais santa que fosse, em que qualquer redação
noticiosa declarasse que, francamente, nada de relevante aconteceu e que por
isso nada há a reportar.
É claro que, em boa verdade, para
podermos comparar estas duas realidades não podemos esquecer a bênção que foi a
evolução tecnológica que ocorreu no período entre a primeira e a segunda. Este
progresso que uniu o mundo acabou por mudar por completo a arte de informar
pessoas: expandiu não só a realidade a noticiar como os meios para o fazer
melhor.
Mas é sinceramente difícil considerar
que esta capacidade acrescida que a imprensa ganhou tenha sido bem empregue. Tem
sido frequentemente usada para sobrecarregar o público com um emaranhado de
notícias ao minuto; com clickbaits; com notícias sobre todos os cenários de
guerra nuclear equacionáveis; com o inovador formato de Reality-Show que vai
estrear para semana, com os desenvolvimentos detalhados nos conflitos bélicos existentes,
com o que uma estrela pop dos anos 90 fez na sua tarde em Lisboa; com os
conflitos que podem eclodir para a semana, com o que o Ronaldo acabou de pôr no
instagram; com o impacto da doçaria conventual na economia local; com os
produtos que afinal não engordam mas afinal causam cancro; com o que as pessoas
na rua pensam do estado das arbitragens no futebol; e com os produtos que
afinal não causam cancro mas que afinal engordam.
No fundo, serviu para criar uma imprensa
que ao tudo amplificar apenas permite ouvir ruído, e que para além do estado de
ânsia a que condena o Homem Moderno, apenas lhe providencia uma capacidade de
ver e perceber a realidade à sua volta equiparável à do nevoeiro espesso que
por vezes em Abril ainda encobre Londres.
Se calhar toda esta sobrecarga é um
sinal dos tempos. Se calhar há simplesmente demasiada coisa a acontecer a cada
dia no mundo para que alguém consiga processar tudo calmamente. E se calhar
teremos sempre meios de comunicação que, há falta de realidade para relatar, se
refugiam na imaginação.
Mas certamente que, se quer sobreviver a
uma crescente apatia e desinteresse do público; e sem cair no extremo do dia
sem notícias de 1930, o jornalismo pode e deve ser capaz de nos oferecer um
olhar mais calmo e sóbrio sobre a confusa realidade que nos rodeia. Noticiando
apenas o relevante com a voz serena e clara que até agora tem silenciado.
E talvez, (quem sabe?), numa qualquer
sexta-feira menos atribulada, o nevoeiro se dissipe, e nos possamos
simplesmente encostar, ouvir 15 minutos de Chopin, e tranquilamente, suspirar.

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