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Good Friday

18 de Abril de 1930, é fim da tarde e a noite começa a cair sobre Londres. Multidões atrapalhadas de trabalhadores cansados aventuram-se em avenidas ruidosas, por entre o nevoeiro espesso, no frio trajeto de volta a casa no final de mais um dia. Quem neste momento olhasse de cima para a capital do império britânico apenas conseguiria ver uma amálgama de ansiedade, pressa e fadiga em que a chuva miúda e ânsia de todo este povo se fundem, como o taciturno nevoeiro se funde com a poluição que assombra a cidade.

Já na periferia, chegados a seus destinos, toda esta gente espera para ouvir na rádio o boletim noticioso da BBC. Esse que todos os dias é transmitido às 20h45. E assim continuará a ser transmitido, mesmo nas noites em que as bombas nazis caírem sobre Londres, impreterivelmente, às 20h45, para fazer uma pequena síntese informativa dos acontecimentos do dia.



Esperam nervosos por eventuais notícias das cada vez mais frequentes revoltas nas colónias britânicas lá longe na Índia, ou talvez novidades dos fascistas de Mussolini que recentemente chegaram ao poder em Itália; ou, quem sabe, desenvolvimentos nas negociações sindicais que os possam afetar. Esperam inquietos nas suas cadeiras de estilo vitoriano que parecem de momento não oferecer qualquer conforto.
            
No centro, junto a Westminster, o Big Ben marca as 20h45. Os trabalhadores intranquilos inclinam-se para a frente das cadeiras para mais perto dos rádios, e escutam finalmente a voz do locutor que diz:
 «Good Evening. Today is Good Friday [1]. There is no news. Please enjoy 15 minutes of light piano music».

Voltam a encostar-se nas cadeiras, e agora ao som de Chopin, todos eles suspiram em uníssono. 

Desde esta noite muito mudou no mundo do jornalismo. Numa indústria que conta com cadeias televisivas de 24 horas de cobertura noticiosa perpétua, e com a sede por audiências que alimentem os publicitários que sustentam grande parte dos media, seria difícil imaginar uma sexta-feira, por mais santa que fosse, em que qualquer redação noticiosa declarasse que, francamente, nada de relevante aconteceu e que por isso nada há a reportar.
            
É claro que, em boa verdade, para podermos comparar estas duas realidades não podemos esquecer a bênção que foi a evolução tecnológica que ocorreu no período entre a primeira e a segunda. Este progresso que uniu o mundo acabou por mudar por completo a arte de informar pessoas: expandiu não só a realidade a noticiar como os meios para o fazer melhor. 

Mas é sinceramente difícil considerar que esta capacidade acrescida que a imprensa ganhou tenha sido bem empregue. Tem sido frequentemente usada para sobrecarregar o público com um emaranhado de notícias ao minuto; com clickbaits; com notícias sobre todos os cenários de guerra nuclear equacionáveis; com o inovador formato de Reality-Show que vai estrear para semana, com os desenvolvimentos detalhados nos conflitos bélicos existentes, com o que uma estrela pop dos anos 90 fez na sua tarde em Lisboa; com os conflitos que podem eclodir para a semana, com o que o Ronaldo acabou de pôr no instagram; com o impacto da doçaria conventual na economia local; com os produtos que afinal não engordam mas afinal causam cancro; com o que as pessoas na rua pensam do estado das arbitragens no futebol; e com os produtos que afinal não causam cancro mas que afinal engordam. 

No fundo, serviu para criar uma imprensa que ao tudo amplificar apenas permite ouvir ruído, e que para além do estado de ânsia a que condena o Homem Moderno, apenas lhe providencia uma capacidade de ver e perceber a realidade à sua volta equiparável à do nevoeiro espesso que por vezes em Abril ainda encobre Londres.

Se calhar toda esta sobrecarga é um sinal dos tempos. Se calhar há simplesmente demasiada coisa a acontecer a cada dia no mundo para que alguém consiga processar tudo calmamente. E se calhar teremos sempre meios de comunicação que, há falta de realidade para relatar, se refugiam na imaginação. 

Mas certamente que, se quer sobreviver a uma crescente apatia e desinteresse do público; e sem cair no extremo do dia sem notícias de 1930, o jornalismo pode e deve ser capaz de nos oferecer um olhar mais calmo e sóbrio sobre a confusa realidade que nos rodeia. Noticiando apenas o relevante com a voz serena e clara que até agora tem silenciado. 

E talvez, (quem sabe?), numa qualquer sexta-feira menos atribulada, o nevoeiro se dissipe, e nos possamos simplesmente encostar, ouvir 15 minutos de Chopin, e tranquilamente, suspirar.




[1] Sexta-Feira Santa em inglês

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