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Macbeth

O que é o destino? Somos nós que caminhamos na sua direção ou é ele que vem ter connosco?

Esta é uma das muitas questões que emergem da peça “Macbeth” de William Shakespeare. Escrita há quatrocentos anos mantém toda a sua intemporalidade, retratando, como nenhuma outra, a relação do homem com o ser, o querer e o poder.


É sob um cenário negro e desolador que a peça tem início. Do céu irrompem raios e trovões. Os ventos uivam. As trevas alastram. E a escuridão impera. Subitamente, por entre o nevoeiro, surgem duas personagens. Macbeth e Banquo, generais do exército escocês, regressam a casa. Para trás deixam uma guerra sangrenta onde acabam de derrotar os exércitos da Irlanda e Noruega. Ao cruzarem uma charneca deparam-se com três bruxas que os esperam. Assim tinham decidido: interpelar Macbeth e revelar-lhe o seu destino. Banquo em vão as tenta afastar, Macbeth consente em ouvi-las. “Senhor de Cawdor e Rei serás”, assim lhe profetizam, perante um ar de aparente incredulidade. Ainda não o sabem mas está lançada a semente da destruição que conduzirá a trama ao precipício da tragédia. O destino está traçado. Também para Banquo que deverá “dar origem a uma dinastia”, não chegando, no entanto, nunca a ser rei.

As bruxas retiram-se, deixando Banquo e Macbeth visivelmente afetados com tais revelações. De rompante, entra em cena um mensageiro do rei Duncan. Informa-os da decisão real de conceder o título de “Senhor de Cawdor” a Macbeth pela coragem e heroísmo demonstrados em batalha. A primeira profecia está cumprida. Macbeth, um homem racional e ponderado, vê-se tomado por um aceso de ambição desmedida.

É à sua esposa que declara os seus pensamentos mais profundos. Ambiciona ser rei mas teme o que precisa de fazer para o conseguir. Lady Macbeth, pelo contrário, está disposta a tudo. Mais impetuosa do que o marido começa a tecer um plano para assassinar Duncan quando este os decide visitar e pernoitar no seu castelo. Macbeth recua perante a malvadez da mulher. Porém, atacado no seu orgulho, acusado de cobardia e de “querer sem mácula o ganho da batota”, é persuadido a seguir com o plano e a fazer cumprir a profecia. Mata Duncan durante o sono, mas é imediatamente tomado pela consciência do que acabara de fazer.

“Que mãos são estas?”. Questiona, voltando-se incrédulo para a mulher que lhe segura o punhal ensanguentado. Macbeth não será mais o mesmo. Viverá até ao fim dos seus dias carregando um sentimento de culpa infernal, um jugo que o aprisionará à perpetuação da tirania.

Duncan é encontrado morto na manhã seguinte. Malcolm, seu filho, Macduff, um nobre escocês, e Macbeth entram no seu quarto e deparam-se com um cenário tenebroso. Os guardas são considerados suspeitos e mortos às mãos de Macbeth. Não se sentindo seguros, Malcolm e Macduff fogem para Inglaterra deixando Macbeth sem opositores para ocupar o trono. Assim se torna rei, cumprindo a profecia.

Mas Macbeth não está em paz, não consigo próprio. Revolta-se contra o destino. O mesmo destino que o levou ao trono o deverá depor. “Destino, ou és por mim ou contra mim”. Receia de Banquo e da dinastia que este deverá originar. “Cada batimento do seu coração é uma estocada contra o meu”. Banquo é agora um alvo a abater.

Contrata dois assassinos. Banquo é morto mas Fleance, seu filho, escapa. O seu tormento agrava-se. O sentimento de culpa é um fardo cada vez mais pesado de carregar. As alucinações passam a ser frequentes. O fantasma de Banquo atemoriza-o fazendo-o passar por louco perante os seus súbditos.

Também Lady Macbeth, agora rainha, cede às dores da consciência. A profecia cumpriu-se, mas a que custo? “É preferível ser arruinada a viver em ruínas de alegria”. Não descansa, deambula durante a noite perdida em pesadelos de culpa. “O que está feito não pode ser desfeito”, murmura em tom melancólico e infernal enquanto tenta, em vão, lavar o sangue que lhe mancha as mãos.

Qual “Príncipe” de Maquiavel, Macbeth, ou o que resta de si, procura manter o poder sem olhar a meios. Todos os que se lhe podem opor fogem ou são mortos. A tirania ensombra o reino. Mas não por muito tempo. Malcolm e Macduff vindos de Inglaterra à cabeça de um largo exército derrotam Macbeth e ostentam a sua cabeça como símbolo da luta contra a tirania.

Assim termina “Macbeth”, uma peça singular que disserta sobre o homem, o poder e a ambição desmedida. E o destino? Cumpre-se ou faz-se cumprir? Será o destino imutável? Caminho traçado a percorrer? Será o homem um mero artífice da criação? Marioneta do demónio? Foi o destino que assassinou Duncan? Ou Macbeth? Somos nós que caminhamos na sua direção ou é ele que vem ter connosco?

A peça “Macbeth” subiu ao palco do Teatro Nacional de São João com João Reis no papel principal e encenação por Nuno Carinhas. Conta ainda com a participação de Diana Sá, Emília Silvestre, Joana Carvalho, João Cardoso, João Castro, Jorge Mota, Paulo Calatré, Paulo Freixinho e Sara Barros Leitão.

José Mário Sousa

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